Mais tarde, nessa tarde, fui ao abrigo. A sala era pequena, com um ligeiro cheiro a fórmula infantil e antisséptico. E ali estava ela — pequenina, enrolada num cobertor fino e desbotado. Os seus punhos estavam cerrados sob o queixo, e os seus lábios emitiam guinchos suaves enquanto dormia.
Ao debruçar-me sobre o berço, os seus olhos abriram-se. Olhos grandes, escuros e curiosos. Ela encarou-me como se tentasse decifrar-me, e algo dentro de mim — algo que há muito considerava insensível — abriu-se de repente.
“Eu levo-a”, disse eu.
O silêncio tomou conta do quarto. Uma mulher de casaco de malha vermelho levantou os olhos da prancheta.
“Senhora…”, gaguejou a assistente social. “Na sua idade…”
“Eu levo-a”, repeti.
Ela observou-me durante muito tempo, esperando que eu me retratasse. Mas não me retiro.
Levar aquele bebé para casa foi como levar a luz do sol para uma casa que não via calor há anos. Nem todos, porém, viam as coisas dessa forma.
Os vizinhos começaram a segredar. Apanhei-os a espreitar por entre as cortinas como se estivessem a assistir a um espetáculo bizarro.
“Aquela viúva louca”, ouvi a Sra. C. dizer.